quinta-feira, julho 14, 2005

Sorry, não resisti!

[...] -Sabes certamente que metade da população da Noruega desapareceu durante a peste negra. [...] Estás ciente de que tinhas milhares de antepassados nessa altura? [...] Cada um de nós tem um pai e uma mãe, quatro avós, oito bisavós, dezasseis trisavós, etc. Se contares até 1349, serão muitos. [...] E a peste bubónica surgiu. A morte alastrou-se de aldeia em aldeia e os mais afectados foram as crianças. Algumas famílias foram completamente dizimadas; noutras escaparam talvez uma ou duas pessoas. Muitos dos teus antepassados eram crianças nessa altura, Hans Thomas. Mas nenhuma delas sucumbiu.
-Como podes ter a certeza? - perguntei surpreendido.
Ele engoiu uma fumaça e disse:
-Porque estás aqui a contemplar o Adriático.
[...]
-A hipótese de nenhum dos teus antepassados ter sucumbido durante a puberdade foi de um em muitos biliões. [...] Não se trata apenas da peste negra, entendes? Na verdade, todos os teus antepassados cresceram e tiveram filhos, inclusivamente durante as grandes catástrofes naturais, mesmo quando a mortalidade infantil era enorme. É evidente que muitos adoeceram, mas escaparam sempre. Nessa ordem de ideias, estiveste à beira da morte biliões de vezes, Hans Thomas. A tua vida neste planeta foi ameaçada por insectos, animais selvagens, meteoros e raios, doenças, guerras, inundações, incêndios, envenenamentos e tentativas de homicídio. Só na batalha de Stiklestad, foste ferido várias centenas de vezes, porque tinhas antepassados em ambos os lados. Na realidade, combateste contra ti mesmo e contra as hipóteses de vires a nascer mil anos mais tarde. [...] Cada vez que as setas choviam pelo ar, as tuas hipóteses de vires a nascer estavam reduzidas ao mínimo. Mas eis-te sob o mesmo céu que eu, Hans Thomas.
[...]
-Estou a falar de uma cadeia contínua de casualidades - continuou o meu pai. - A cadeia reporta-se, com efeito, à divisão das primeiras células vivas em duas, dando origem a tudo o que cresce e nasce, hoje em dia, neste planeta. A hipótese de a minha cadeia não ter sido interrompida uma ou outra vez ao longo de três ou quatro biiões de anos era remota, mesmo inconcebível. Mas, como vês, esacapei. [...] Cada pequeno habitante da Terra tem uma sorte enorme.
-E os que não tiveram sorte? - perguntei por meu turno.
-Esses não existem - gritou. - Nunca nasceram. A vida é uma enorme lotaria em que só são visíveis as cautelas vencedoras.
[...]
-As pessoas preocupam-se com o sobrenatural, devido a uma estranha cegueira. Elas não compreendem que o mais misterioso de tudo é o mundo. Preocupam-se mais com os marcianos e com os discos voadores do que com esta misteriosa obra de criação que se estende a nossos pés. Não considero que o mundo seja uma casualidade, Hans Thomas.

in, O Mistério do Jogo das Paciências, de Jostein Gaarder

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